07mar

As limitadoras rotulações

– Bernardo é incontrolável.

– Carolina é teimosa.

– Paulo é inteligente.

Fizeram isso conosco e nós por repetição fazemos com os nossos filhos e com as pessoas num modo geral. Mesmo que tenhamos jurado que faríamos diferente quando nos tornássemos pais, rotular e adjetivar funciona muitas vezes como um ato involuntário. Quando percebemos, já saiu.

Desde que me tornei mãe e, consequentemente, impiedosa praticante da tortuosa arte de carregar culpas, reflito muito sobre isso. Quando era adolescente constantemente me rebelava contra o que eu intitulava de “olhos viciados”. Impetuosa e questionadora, por vezes me via às voltas com determinadas características que as pessoas teimavam em me atribuir. Confesso que em algumas delas eu até me encaixava, mas num modo geral elas diziam respeito a um determinado momento que eu vivia e não a minha personalidade em si. E essa confusão entre o “estar” e o “ser” é corriqueira na arte da rotulação.

No ano passado passei por um revelador processo de coaching, aonde fui instigada a rever todas as minhas possíveis fraquezas internas. A cada uma que eu enumerava, era questionada sobre a sua origem ou veracidade. E observando de fora cada uma delas percebi que ao longo da vida nos apoiamos em algumas bengalas, que no fundo não existem. Por exemplo, eu cresci com a crença de que era uma pessoa ansiosa, portanto, cada vez que me percebia agoniada por algum acontecimento, logo já me vinha na cabeça esse rótulo e eu justificava meu sentimento.

Elaborar juízos de valor, atribuir rótulos, sejam bons ou ruins, aos nossos filhos funcionam como uma espécie de limitador das suas próprias capacidades. E geralmente analisamos, seja o nosso filho ou as pessoas que nos cercam, através dos nossos próprios padrões sociais. Despejamos nossas frustrações, nossos julgamentos como se eles tivessem o caráter de verdade absoluta. Acabamos por enquadrá-los e estigmatiza-los baseados apenas naquilo que julgamos como certo e errado, e não analisando a complexidade da situação.

As crianças são seres em fase de transformação, então, qualquer estigma que atribuímos à elas pode acabar se tornando algo que elas levarão para toda vida. Os adultos na visão dessas crianças possuem uma espécie de poder. Assim, se eles praticam incessantemente essa arte de rotular, utilizam esse poder de forma controversa. Os filhos nascem e atuam para pertencer aos seus núcleos familiares, portanto, se não tivermos a consciência de cessar essa anulação de potenciais, iremos confina-los em estigmas ao invés de incentivá-los a enxergar a beleza da diversidade.

Em grande parte cabe à Escola desvencilhar e combater essas rotulações, mas se nós pais nos conscientizarmos, não precisaremos depender da sensibilidade dos professores e da instituição de ensino em si.

Costumo dizer que ter um filho não é sinônimo de se tornar pai e mãe. Além de os colocarmos no mundo, é preciso que estejamos sempre evoluindo e aprimorando o nosso modo de viver. Se pretendemos que eles se tornem pessoas capazes e saudáveis, deixemos que eles descubram quem são ao longo das suas vidas. Não devemos confina-los com atributos que possam impedi-los de ser quem eles realmente são, e não quem nós insistimos em dizer que devem ser.

Deixo a reflexão.

Beijos, Juliana Baron Pinheiro

Juliana Baron Pinheiro: casada, mãe, mulher, filha, irmã, amiga, formada em Direito, aspirante à escritora, blogueira e estudante de Psicologia. Descobriu no ano passado, com psicólogos e um processo revelador de coaching, que viveu sua vida inteira num cochilo psíquico. Iniciou uma graduação para compartilhar com os outros a maravilha da autodescoberta e que acabamos buscando aquilo que já somos. Lançou seu blog “Psicologando – Vamos refletir?” (www.blogpsicologando.com), com textos que retratam comportamentos e sua caminhada no curso de Psicologia.

  1. Também sou Mãe, irmã, filha, amiga, casada e estudante de psicologia e concordo com cada palavra..Não devemos rotular ou ou desejar que nossos pequenos sejam aquilo que sonhamos ou o que não conseguimos ser.

Deixe um comentário