Texto Victoria Panzan

Desde menina me imaginava mãe, mas nem nos meus sonhos mais malucos eu poderia prever como as coisas aconteceriam na prática: em meio a uma pandemia e morando do outro lado do mundo! Em 2018, ainda recém-casada, me mudei para a Malásia, acompanhando o marido num novo desafio profissional. Deixei para trás a carreira de advogada em São Paulo e abracei o desafio de construir uma vida nova no Sudeste Asiático.

Viemos com a cabeça aberta e em pouco tempo já estávamos bem acomodados. Montamos nosso apartamento, fizemos amigos, descobrimos novos lugares preferidos e viajamos muito. E foi durante um feriadão na praia, em fevereiro de 2020, que uma amiga cantou a bola: “Você está grávida!

Registro que fiz durante o tempo que ficamos em lockdown, do corpo tomando forma de grávida.

Era bem verdade que eu estava indisposta há vários dias, mas jurava de pés juntos que era só reflexo de uma intoxicação alimentar recente. Eu nem desconfiava que poderia ser gravidez. Foi só por insistência dela que resolvi fazer um teste de farmácia… E não é que apareceram dois tracinhos mesmo?

Na adrenalina do momento e meio sem acreditar, fiz mais um teste. E depois mais um. E depois mais outro e outro e outro. Ao todo, foram necessários 6 positivos para me convencer de que, bem, talvez eu estivesse grávida mesmo.

E se em casa as coisas tinham acabado de mudar drasticamente, da porta para fora elas também estavam bem esquisitas.Era o começo da pandemia do coronavírus e ninguém sabia direito o que fazer. Parecia uma coisa distante, acontecendo lá na China, mas ela chegou até aqui e, um mês depois, entramos em lockdown. O exército foi colocado na rua e havia bloqueios por toda a cidade. O comércio parou de funcionar, fecharam as praças de pedágio para evitar que as pessoas viajassem, só era permitido sair uma pessoa por família e apenas para comprar alimentos ou remédios.

Tinha até uma espécie de toque de recolher, com limitação de horário para circular. Ironicamente, na manhã do primeiro dia do isolamento, quando todos deveriam ficar em casa, eu saí logo cedo. Nesse dia, eu completava 12 semanas de gestação e tinha consulta com a obstetra. No mesmo dia em que pude respirar aliviada por cruzar a linha do primeiro trimestre, fiquei aflita por ver o país entrando num estado quase pré-guerra.

Nessa fase, só o marido saía para ir ao supermercado e, por quase 50 dias, fiquei em casa, sem botar o pé para fora. A temporada de confinamento, somada à falta de exercício físico e exposição solar, às alterações hormonais, emocionais e físicas da gravidez, às novas demandas do trabalho remoto, à insegurança e ao medo provocados pela pandemia, teve um peso enorme sobre mim.

Passei por dias difíceis, mas com o tempo e paciência as coisas melhoraram. A medida que a barriga crescia e ficava mais redondinha, fui me sentindo mais confortável no meu novo papel. Por fora, eu tomava forma física de grávida; por dentro, meu coração também se transformava para acomodar a mulher que eu estava me tornando.

O acompanhamento pré-natal aqui não é muito diferente do que vemos no Brasil – são os mesmos exames, recomendações e procedimentos –, mas com a particularidade dos hospitais e clínicas públicos serem de uso exclusivo dos cidadãos. Eu, sendo estrangeira, tive que fazer tudo pela rede particular. Apesar de mais caro, pude escolher uma médica da minha preferência e era ela mesma quem fazia todos os exames e ultrassons, no próprio consultório. Ter essa relação de proximidade e confiança com ela foi fundamental para que eu ficasse tranquila em ter bebê estando tão longe de casa e em circunstâncias tão únicas.

Na Malásia, a regra é o parto normal e em toda consulta eu recebia dicas de como preparar o meu corpo para essa tarefa: exercícios para o assoalho pélvico, o jeito certo de respirar, a preparação do períneo etc. Em nenhum momento cogitou-se a possibilidade de fazer uma cesariana. Ou melhor… as únicas vezes que a minha obstetra falava em cesariana era para dizer que “eu sei que você é brasileira e que no Brasil você pode escolher, mas aqui não é assim.”

Mesmo tendo desenvolvido diabetes gestacional, não tive grandes complicações. Andava com o meu medidor de glicose para cima e para baixo, furei todos os dedos até dizer chega, mas consegui manter tudo sob controle só com dieta e exercício físico. Com a 40ª semana cada vez mais próxima e nenhum sinal de bebê querendo sair da barriga, começamos a conversar sobre a possibilidade de termos que induzir o parto, já que não é recomendado que a mãe diabética vá além desse prazo.

 Na véspera da Clara nascer. Passei o dia circulando pelos corredores da maternidade, enquanto a medicação da indução fazia seu trabalho.

Relutei um pouco, porque queria que a minha filha tivesse a chance de vir ao mundo no seu próprio tempo e negociei para esperarmos mais um pouco. A médica estava segura de que o meu quadro de saúde era bom e me permitiu ir alguns dias além do combinado, mas não teve jeito. Com 40 semanas e 5 dias, partimos para a indução.

Entre internar e a criança efetivamente nascer, foram pouco mais de 30 horas, mas o processo foi todo muito calmo e muito tranquilo, e estive todo o tempo acompanhada das parteiras do hospital. Apesar das restrições por conta da Covid-19, que exige o PCR negativo no dia da internação, meu marido pôde estar presente, e bem cedinho numa manhã de quarta-feira, finalmente conhecemos a Clara.

Uma mãe paparazzo, encantada com cada milímetro do seu bebê recém-nascido.

Parir foi difícil e dolorido, mas esse momento do primeiro encontro com a minha filha foi a coisa mais fantástica que eu já vivi! Faria tudo outra vez. O atendimento da equipe do hospital foi impecável durante todo o tempo em que estivemos lá e as enfermeiras me ensinaram a dar banho na bebê, trocar fralda, limpar o umbigo… Todas as coisas que eu não tinha a menor ideia de como fazer. O hospital também oferece consultoria de amamentação gratuita mesmo depois que a mãe recebe alta, e ter essa ajuda à minha disposição fez muita, muita, muita diferença. Saber a quem recorrer na hora do aperto foi muito importante.

Aliás, na cultura asiática, há todo um esquema montado para ajudar a mulher a ter uma boa recuperação no pós-parto e navegar o puerpério. Ninguém espera que ela passe por tudo isso sozinha. Há profissionais especializadas no cuidado com a recém-parida e elas são responsáveis por acompanhá-la durante todo o puerpério, preparando comidas nutritivas e chás, fazendo massagens e oleações por todo o corpo, e ajudando com a amamentação e cuidados com o bebê.

Algumas moram com a família por um tempo, mas também há centros dedicados especialmente para isso. Funciona como uma espécie de spa, que recebe a mãe, o pai e o bebê, e cuida deles durante o período do resguardo (que aqui eles chamam de “confinement”). Eu preferi vir direto para casa, mas consegui implementar duas dicas que me deram: manter o corpo sempre aquecido, inclusive mãos e pés, e comer comidas de fácil digestão, tipo caldos e sopas.

 Podia ser um editorial, mas não é. Registro espontâneo de um momento íntimo da nossa família e estou usando pijama e sutiã de amamentação ASM 🙂

Não sei explicar ao certo o porquê, mas isso me trazia muito mais conforto e uma sensação de aconchego. Gostei bastante e quem sabe para o próximo filho eu não me empolgue para testar todos esses protocolos de “confinement”. Quem foi (e continua sendo!) meu braço direito nos cuidados com a Clara foi o meu marido. Nós dois cuidamos da bebê, mas também um do outro. No início, enquanto eu passava horas a fio dando de mamar, era ele quem preparava as refeições e muitas vezes até teve que me dar comida na boca.

Hoje, aprendemos a viver numa família de três pessoas e a nossa dinâmica já é bem mais tranquila e estruturada. Quando olho para trás e vejo tudo o que eu passei na gestação, parto e puerpério, quase nem acredito que dei conta.

A maternidade tem se mostrado, ao mesmo tempo, muito melhor e muito mais difícil do que eu poderia prever. Mas tem sido a melhor aventura de todas!

Nossos cartões de Natal de 2020, o primeiro sendo uma família de três.

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