Texto do psicólogo Alexandre Coimbra Amaral 


Quando nasceu um bebê, nascem julgamentos sobre como a mãe deveria se comportar com ele. Numa sociedade que tem medalha de ouro na Olimpíada da Culpabilização Materna, não faltam personagens que fazem o papel deplorável de criticar uma mulher que está, com todas as forças possíveis, aprendendo a tarefa mais desafiadora, eterna e interminável de sua existência. Poderíamos listar muitas figuras, mas comecemos por alguns tipos que só aumentam a sobrecarga emocional da jovem mãe. 

1 – A mulher resignada, pragmática e sem frescura 

Muito comum nas gerações anteriores à da puérpera, mas que também pode ser uma amiga sem filhos da mesma idade, ou que teve filhos numa outra condição social, racial, conjugal ou psíquica. “Na minha época não tinha nada disso, a gente fazia o que tinha que ser feito e pronto”, “Você está chorando por um filho vivo e saudável? Pelo menos…(e em seguida vêm expressões como “seu marido é um bom homem”, “você tem de onde tirar dinheiro para os boletos”, “você não sofreu como uma amiga minha que…”), “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima?”. 

2 – As avós que se digladiam pela posse do bebê

Num mundo em que a competição impera como fundamento, mulheres infelizmente competem pela primazia no cuidado do filo, no momento em que a mae quer e precisa fusionar a ele, para construir o vínculo seguro que fará toda a diferença na vida de ambos. A saída é conversar com elas sobre o apego e fusão emocional, e os ganhos disso para o neto, sustentando a possibilidade delas entrarem em ação quando a mãe assim solicitar. Há a possibilidade da raiva aparecer nestas avós, porque se sentirão com inveja do nível de cuidado ofertado à puérpera, tão maior do que ela puderam viver. 

3 – A visita para quem a mulher deve fazer sala 

A cultura familiar brasileira inviabiliza a exaustão materna, então a mãe precisa estar presente e disponível para receber visitas que têm o desejo de conhecer o bebe e de conversar com sua mãe. Os visitantes podem ser inclusive muito afetivos, mas transtornam o cenário já complexo de uma família se adaptando à chegada do bebê. Eis aqui uma bela função para o marido se ocupar, começando a compreender o que é carga mental: antecipar-se à cultura e mandar recado para todos, dizendo que serão avisados no momento em que as visitas forem bem-vindas (no segundo mês, por exemplo, se assim a mãe quiser)

4 – O marido regredido que age como o filho mais velho da esposa 

Uma verdade inconveniente vem à tona nos casamentos com filhos: somos patriarcalmente programados para a dependência emocional de nossas companheiras. A ponto de, quando o filho nasce, dizermos as mesmas frases que o filho mais velho diz sobre a mãe: “ela não me dá mais atencao”, “ela só quer pensar no bebê”, “não temos mais tempo juntos só eu e ela”, Quando nos infantilizamos, nós homens costumamos cair fora do papel adulto de cuidadores responsáveis, e nos refugiamos no velho lugar de provador financeiro que precisa trabalhar. 

5 – O pediatra que não apoia a amamentação 

Um fenômeno muito mais comercial e ético do que fruto do desconhecimento dos direitos da mulher e do bebê. As empresas de leite artificial construíram uma indústria milionária, que lucra com o desmame que “salva” a mulher que amamenta no peito das angústias sentidas no início do processo. O pediatra muitas vezes faz este papel lamentável, ao invés de acolher a mulher na legitimidade de suas frustrações, e indicá-la ara uma consulta de amamentação, por exemplo. 

6 – O chefe que acha que ela ficou de férias na licença-maternidade 

Uma mulher retorna ao trabalho muitos antes do que seu coração estaria totalmente preparado para se separar do bebê, ainda que possa estar muito feliz pelo retorno por gostar de trabalhar. Há uma fusão emocional ali, que dói por sua separação precoce, num misto ambivalente de tristeza e alivio, porque ela está de fato exausta das rotinas do bebê hiperdemandante. E o chefe lida com ela, inclusive com piada infames, dizendo que ela está descansada, á que esteve quatro meses fora do escritório, que ela precisa ter foco para se dedicar ao trabalho. O que revela nesta interação profissional é um desconhecimento absoluto da condição puerperal. A mulher estará cada vez mais preparada para assumir responsabilidade múltiplas, porque ser mãe é acumular tarefas subsequentes numa carga mental digna de uma CEO. Mas isto vem aos poucos, num ritmo que é o da conexão emocional com o filho. Julgar uma mãe exausta, que não dorme e que está preocupada como ele está sendo cuidado, é muito cruel. Ela não se transformou numa pessoa lentificada, ela está se transformando em uma outra pessoa, ainda mais potente e forte. Há que se ter olhos para ver isto…

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