por Juliana Baron

 

Estou lendo o livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra” da Laura Gutman, e estou adorando. Talvez você já tenha ouvido falar (bem ou mal) dele ou você não tenha gostado muito da leitura – e te entendo completamente -, mas como eu comungo demais com a posição da autora e como acho que vale a reflexão, hoje quis vir falar um pouco sobre ele.

De forma bem resumida, Laura afirma em seu livro, que a maternidade, além de ser um momento maravilhoso, revela a sombra da mãe (entenda por sombra a parte escura do mundo psíquico e espiritual) e que o bebê sente como se fossem todos os seus sentimentos, os da mãe, sobretudo, aqueles dos quais não tem consciência. A autora, ao longo da obra, explica e exemplifica essas afirmações e fala sobre como essas manifestações, que refletem a sombra da mãe, podem servir para o seu crescimento pessoal.

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Disse no início que entendo quem não gostou do livro, porque sei que ouvir sobre o vinculo e a responsabilidade direta que temos sobre nossos filhos, não é mesmo tão sonoro assim. Compreender e aceitar que choros, cólicas e incomodações, por exemplo, têm ligação direta com a maneira como nós mães nos tratamos e nos sentimos, pesa e pode causar muitos incômodos internos. Não, não estou trazendo à tona aquele clichê de que “a culpa é sempre da mãe” porque sempre fujo dessa piada sem graça e detesto quando usam o termo “culpa”. Quer vincular o cuidado de uma mãe ao comportamento do filho? Fale em responsabilidade.

Ok, mas por que afirmo que as colocações de Laura me agradam? Porque por experiência própria, sei que a maternidade releva as nossas próprias sombras e depois de algum tempo de análise, me foi revelada a via mais do que direta entre o que eu vivo e como meu filho se apresenta. Imaginamos que iremos engravidar, que tudo serão flores e que os únicos contratempos serão os físicos, como excesso de peso, enjoos e azia. Só que não. Parece que a partir do momento em que nos descobrimos grávidas, nos enchemos de dúvidas e emoções desconhecidas, contraditórias. É como se a poeira das nossas inquietações, que Laura diz que seriam todas nossas misérias, alegrias, inseguranças e situações que precisam ser resolvidas, fosse assoprada para fora do nosso tapete psíquico. Muitas vezes, até escolhemos não vê-la, afinal estamos ocupadas demais com os preparativos e as listas, mas então o bebê nasce e a poeira continua por ali. E se escolhemos não vê-la, as inquietações se apresentam através de sintomas comuns. É o leite que não desce, o bebê que só chora, uma tristeza que toma conta…

Entendo que não é fácil falarmos sobre caos interno, crise de identidade e desestruturação espiritual durante um dos momentos mais bonitos na vida de uma mulher, mas tenho para mim que há beleza em toda essa impermanência e que se nos déssemos mais atenção durante esse período, sairíamos muito mais fortes dele. Criaríamos filhos mais saudáveis psiquicamente, mais disponíveis para a vida e muito mais independentes. Também entendo que talvez a gravidez não seja o melhor momento para que todas as mulheres reflitam sobre suas pendências emocionais ou vasculhem seus alicerces psíquicos. Sei que algumas possuem questões mais práticas a serem resolvidas, como o relacionamento com o pai daquele filho, por exemplo, mas acredito, de verdade, que a gestação vai muito além de passar creme na barriga, fazer um book bacana ou pensar na decoração do quarto, e se pudermos e estivermos dispostas a mergulhar para dentro de nós mesmas, sairemos dela muito mais íntegras e evoluídas.

Enfim, para quem não conhece o livro e para quem gosta de questionar suas crenças empoeiradas, fica a indicação.

Como essa semana completo 38 semanas de gestação, talvez não apareça no próximo mês, mas assim que eu me organizar na nova rotina, entre uma mamada e outra e entre uma reflexão e outra, espero aparecer por aqui.

Beijos, Juliana Baron

(Não entrei muito na questão da figura paterna porque só posso falar por mim, que sou mãe, e o livro foca no que Laura chama de fusão emocional bebê-mãe).
Juliana Baron é um milhão de mulheres em uma só e isso, às vezes, gera uma confusão absurda (por isso, tanta terapia) e, consequentemente, muito assunto para escrever. É apaixonada pelo universo feminino e pretende trabalhar com ele assim que se formar em Psicologia. É mãe do João e está grávida de mais um menino, mas jura que vive uma vida para além da maternidade. É coach, gosta de ler, de escrever, de organizar armários, de colecionar coisas e de relembrar a infância.

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